Quem lê meu blog há algum tempo lembra bem dos posts em que eu falei que a internet aqui é bloqueada pela Etisalat, uma das duas únicas provedoras de acesso. Bloqueiam os sites que “desrespeitam os valores locais”. E quem leu mais, viu eu dando graças à Du, a nova operadora que surgiu para acabar com o monopólio da Etisalat. A Du não bloqueava internet, por isso fiquei feliz em assinar seu serviço.
Opinei também, querendo ser o analista de mercado, afirmando que acreditava que a Du agora teria uma vantagem mercadológica, já que não bloqueava a internet. Ainda bem que sou designer. Porque ontem a Du passou a bloquear os sites desrespeitosos.

Triste. Uma pena. Me parece uma tentativa desesperada de impor um pouco da fraca cultura local, tentando de um jeito bastante trapalhão - na minha opinião - frear a evidente e inevitável ocidentalização do país. É muito hipócrita convocar mão de obra estrangeira especializada e não especializada para desenvolver o país e, como o dono da bola, impor regrinhas bobas ao jogo só pra manter o orgulho - porque se não obedecer, não joga.
Soube através fontes seguras que a Du pagava multas por ainda não bloquear sites indecorosos, e que muita gente ia bater palmas quando a Du finalmente o fizesse. Parece que era isso mesmo.
Ao contrário da Etisalat, a Du não está bloqueando o www.skype.com. Vamos ver se isso vai mudar no futuro, mas esse fato me intrigou. Existia uma teoria que a Etisalat bloqueava o Skype pra não sofrer concorrência de uma alternativa tão barata. Talvez não bloqueando o Skype a Du (que também provê telefonia fixa) esteja tentando manter aquela vantagem mercadológica que eu mencionei.
Não vou ser ingênuo a ponto de afirmar que o bloqueio existe apenas por orgulho. Certamente existem questões de interesse econômico e/ou político por trás do bloqueio. Mas não consigo vê-las, da minha perspectiva limitada.
Dando uma de analista novamente, acredito que esse tipo de interferência não é bom para o mercado, porque não tem nenhuma base econômica. Não é um modelo muito eficiente, como explica o livro que estou lendo no momento (The Undercover Economist, de Tim Harford, muito bom por sinal). No livro, Hardford explica que num mercado totalmente eficiente, não há como melhorar a situação de alguém sem piorar a situação de outro. Ou seja, se você pode melhorar a situação de uma pessoa sem piorar a de outra, o mercado fica mais eficiente.
Imagine neste caso, se a provedora de internet oferecesse o acesso com bloqueio por um preço X. Se você quisesse internet desbloqueada, pagaria um serviço extra, X+Y. Dessa maneira os locais conservadores poderiam proteger sua família e seriam confortados sabendo que se os estrangeiros quisessem acessar conteúdo “desrespeitoso”, teriam que pagar um preço por isso. E os estrangeiros, por sua vez, pagariam com prazer a diferença para ter sua internet desbloqueada. Isso significa que todos ficam em situação melhor, inclusive o provedor, que terá mais lucros.